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CAPÍTULO 1 — PORTO PEDRA

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Ongoing 1961 Words

CAPÍTULO 1 — PORTO PEDRA

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CAPÍTULO 1 — PORTO PEDRA

Porto Pedra não era meramente uma cidade, nem mesmo um assentamento fortificado. Era, antes, uma chaga aberta na vasta e azulada face do oceano, uma cicatriz antiga que se recusava a sarar. Suas moradas, retorcidas e desalinhadas, erguiam-se umas sobre as outras como dentes cariados de uma besta marinha, construídas com a pedra escura e bruta da costa, com madeiras arrancadas de cascos de navios há muito esquecidos e com placas de metal enferrujado, resgatadas de carcaças de aeronaves que, em eras passadas, sulcavam os céus, mas que agora jaziam inertes, testemunhas silenciosas de um tempo que não mais existia. A fumaça, espessa e cinzenta, que emanava das chaminés tortas e dos edifícios decrépitos, tingia o firmamento com um véu perpétuo de melancolia. O vento salgado, que deveria purificar o ar, apenas servia para espalhar o odor pungente de óleo queimado e a acidez da ferrugem, um hálito metálico que impregnava cada fresta e cada alma.
Um antigo ditado, sussurrado entre os poucos que ousavam permanecer em suas vielas escuras, ecoava sobre aquela cidade portuária: "Quem busca o esquecimento, encontra refúgio em Porto Pedra. Quem trama o que não deve, ali se enraíza." Era um lugar de sombras e segredos, onde o passado se misturava ao presente em uma névoa de incerteza.
No extremo mais recôndito do cais, onde as águas escuras beijavam as pedras musgosas e os olhares curiosos dos transeuntes eram escassos, repousava o Naer, amarrado por grossas cordas a postes corroídos pelo tempo. A embarcação, outrora talvez majestosa, agora parecia exausta, como um velho guerreiro ferido em incontáveis batalhas. Uma de suas asas, que outrora o impulsionava pelos céus, estava remendada com placas de metal de cores e texturas díspares, um testemunho visível de sua longa e atribulada jornada. O casco, por sua vez, exibia cicatrizes profundas e remendos grosseiros, cada um contando uma história de colisão e reparo. Contudo, em seu coração, o cristal central ainda pulsava, uma luz fraca e irregular sob a carcaça metálica, um eco moribundo de seu poderio ancestral.
Sob a sombra da asa remendada, Marik, um homem de mãos calejadas e semblante sério, trabalhava com afinco, auxiliado por dois jovens aprendizes. Seus movimentos eram precisos, cada martelada e cada ajuste revelando anos de experiência com a mecânica intrincada do Naer.
"Isso vai aguentar?" perguntou um dos assistentes, cético, enquanto Marik apertava um parafuso.
Marik, sem desviar o olhar da peça, deu um pequeno empurrão na estrutura. "Vai voar", respondeu ele, com uma certeza teimosa.
"Eu perguntei se vai aguentar", insistiu o aprendiz, a dúvida na voz.
O velho mecânico deu de ombros, um gesto que revelava tanto resignação quanto sabedoria. "Em Porto Pedra, voar já é o bastante, moleque. Ficar parado é luxo que poucos têm."
Arem, por sua vez, mantinha-se um pouco afastada do burburinho, sua figura imponente observando o mar revolto. O machado de duas mãos, uma extensão de seu próprio ser, repousava apoiado em seu ombro, o cabo de madeira polida firmemente agarrado por suas mãos grandes e fortes. Sua postura era de uma tranquilidade quase pétrea, mas seus olhos, que pareciam perscrutar as profundezas do oceano, revelavam uma atenção aguçada a tudo o que se passava ao seu redor. Embora parecesse alheia à conversa, nada escapava à sua percepção aguçada.
 
 
Mais acima, serpenteando pelo caminho íngreme que conduzia ao coração da cidade, Kaer avançava com passos firmes, acompanhada por Lapin. O mercado, mesmo sob o manto crepuscular, fervilhava com uma vida peculiar. Lanternas improvisadas, penduradas entre os edifícios tortos, lançavam um brilho bruxuleante sobre as barracas improvisadas, onde mercadores de todas as estirpes ofereciam seus bens: peixes frescos, peças mecânicas de origem duvidosa, cristais de brilho enganoso e uma miríade de outros objetos cuja procedência ninguém ousava questionar, pois em Porto Pedra, a curiosidade excessiva era um luxo perigoso.
Cistine, a passos discretos, seguia alguns metros atrás de Kaer, seus olhos vigilantes fixos na capitã. Era difícil discernir se aquele olhar era de uma caçadora à espreita ou de uma protetora zelosa, tal era a intensidade e a ambiguidade de sua expressão. Embora os Rathaes não fossem uma visão incomum em Porto Pedra, o grupo, e Kaer em particular, atraía olhares e sussurros, uma aura de mistério e perigo os cercando.
"Estão olhando pra gente", murmurou Cistine, se aproximando, a mão no punhal.
Lapin, sem sequer virar a cabeça, respondeu com um tom de voz calmo e experiente. "Aqui, todo mundo olha todo mundo, Cistine. É assim que funciona."
"Não desse jeito", retrucou Cistine, os olhos faiscando, a mão apertando o punhal.
Kaer, alheia à tensão crescente, deteve-se diante de uma banca de cristais, sua atenção aparentemente capturada pelas pedras cintilantes. O vendedor, um homem de feições envelhecidas e olhos cansados, ergueu o olhar para ela, um pressentimento sombrio em sua voz.
"Aquela tempestade é mau presságio", comentou ele, os olhos fixos no horizonte atrás de Kaer.
A capitã examinou uma pedra sem grande interesse, sua expressão impassível. "Não sou supersticiosa, amigo."
O vendedor hesitou, um calafrio percorrendo sua espinha. "Deveria ser, capitã. Os presságios de Porto Pedra raramente falham."
Cistine inclinou levemente a cabeça, seus olhos fixos no vendedor, uma ameaça silenciosa em seu olhar. Kaer, com um movimento quase imperceptível, deixou duas moedas na banca e, com a mesma discrição, pegou um pequeno pedaço de papel das mãos do homem.
"Precisamos ir para o cais. Agora", disse a capitã, a voz baixa e urgente, esmagando o papel entre os dedos.
O cheiro de peixe e especiarias do mercado ficou para trás, substituído pelo ar mais frio e salgado do cais, um prenúncio de eventos iminentes.
 
 
Arem permanecia em seu posto, inabalável, quando suas companheiras retornaram. Sua voz, grave e calma, rompeu o silêncio da noite.
"Três homens passaram por aqui, fingindo que estavam bêbados", relatou ela, os olhos nas sombras.
"Fingindo?" perguntou Lapin, cética.
"Essa cidade não é pra amadores, Lapin", respondeu Arem, com um tom de aviso. "Ficar bêbado perto do mar aqui é pedir pra virar comida de tubarão. Eles não eram só bêbados."
Kaer e Lapin trocaram um olhar rápido, a compreensão silenciosa passando entre elas. Então, o som de passos se fez ouvir, ecoando nas pedras úmidas do cais. Seis figuras emergiram das sombras de um beco estreito, entre o armazém e a torre de amarração. Avançavam lentamente, com uma confiança excessiva para quem se aventurava nas profundezas de Porto Pedra.
O líder do grupo, um homem magro e alto, com um bigode ralo e um sorriso torto que revelava uma malícia inata, assobiou ao avistar as três mulheres. "Boa noite, ratinhas. Estão muito longe de casa, não acham?"
Kaer manteve o capuz baixo, sua voz soando fria e controlada. "Vocês erraram de cais, meus caros. O destino de vocês não é aqui."
O homem deu alguns passos à frente, seus olhos perscrutando o grupo com uma astúcia calculista. "Talvez. Mas alguém está procurando por vocês, e com muito afinco."
Lapin permaneceu em silêncio, sua mão já no punho de sua espada, pronta para o que viesse. O sorriso do homem se alargou, revelando dentes amarelados.
"Na verdade... só uma de vocês é o alvo da nossa busca", disse ele, apontando o queixo na direção de Kaer. "A capitã."
Cistine deslizou a mão para o punhal, seus olhos fixos no agressor. "Se sabem quem ela é, então também sabem que esse é um erro grave, e que vai custar caro."
Um dos homens atrás do líder soltou uma risada áspera. "Não é erro, mulher. É trabalho. E o trabalho tem que ser feito."
O sujeito do bigode inclinou a cabeça, seus olhos percorrendo Kaer de cima a baixo com uma lentidão perturbadora. "Pediram ela viva. O resto... bem, o resto ninguém mencionou."
Outro deles soltou uma risada curta e obscena. "Sempre sobra tempo numa viagem longa, não é mesmo?"
Arem suspirou, um som que parecia carregar o peso de mil batalhas. "Eu odeio esse tipo de conversa. É sempre a mesma ladainha."
O homem do bigode abriu os braços em um gesto teatral. "Olha pelo lado bom, capitã. Se vier sem lutar, talvez a gente até trate você bem."
O machado de Arem cruzou o ar antes que ele pudesse terminar a frase. A lâmina, afiada e pesada, enterrou-se no peito do homem com um impacto seco e brutal. Ele caiu de joelhos, seus olhos arregalados em choque, ainda tentando compreender o que havia acontecido. Por um instante, um silêncio sepulcral pairou sobre o cais, quebrado apenas pelo som das ondas.
Cistine, observando a cena do alto da estrutura lateral, gritou, sua voz cortando o ar. "Não é assim que se usa um machado de duas mãos, Arem! Tem técnica pra isso!"
Arem revirou os olhos, um gesto de impaciência que contrastava com a brutalidade de sua ação. Então, o caos irrompeu. O homem de cabeça raspada avançou primeiro, puxando uma faca curva. Mas Lapin, mais rápida que o pensamento, moveu-se antes que ele pudesse completar seu passo. A espada dela descreveu um arco rápido e limpo, e a garganta do homem se abriu como um segundo sorriso, um jorro escarlate manchando as pedras.
Outro agressor tentou flanquear Arem pela esquerda. Ela o agarrou pela gola antes que ele pudesse completar seu movimento e o lançou contra uma pilha de caixas de madeira no cais com uma força descomunal, o som da madeira estilhaçando-se ecoando na noite. Cistine, como uma sombra desprendida da estrutura acima, caiu entre dois deles, seus punhais surgindo em suas mãos com uma velocidade letal. Um dos mercenários tentou gritar, mas o som morreu em sua garganta, sufocado pelo ar que lhe foi roubado.
O último dos agressores hesitou, o mais jovem do grupo. Seus olhos, arregalados de terror, varriam os corpos caídos, tentando assimilar como aquela emboscada planejada havia se transformado em um massacre tão rápido e impiedoso. Não era assim que as histórias sobre aquelas mulheres haviam sido contadas a ele.
Arem, com um puxão vigoroso, arrancou o machado do peito do primeiro homem, o som úmido e repulsivo preenchendo o ar. A imagem das três mulheres, agora sombras disformes embebidas em sangue e o cheiro metálico de ferro, fez com que o jovem perdesse o controle de suas entranhas. Cistine, surgindo diante dele como um vulto, desferiu o golpe final, encerrando a luta com uma eficiência brutal.
Quando o último suspiro se esvaiu, seis corpos jaziam espalhados pelo cais, testemunhas silenciosas da violência que ali ocorrera. O mar, indiferente à tragédia humana, continuava a ir e vir contra as pedras, como se nada tivesse acontecido, sua melodia constante embalando os mortos.
Kaer ajoelhou-se ao lado de um dos caídos, seus dedos ágeis puxando o forro do casaco do homem. Lapin, com sua percepção aguçada, viu o que Kaer procurava antes mesmo que a capitã pudesse falar: o símbolo imperial, raspado, mas ainda visível, mal escondido sob o tecido. Kaer observou o emblema por alguns segundos, a brisa marinha soprando seus cabelos.
Ela se levantou devagar, seus olhos percorrendo o Naer, depois a cidade, e finalmente os corpos espalhados pelo cais. "Isso não é bom", murmurou Lapin, apreensiva.
Kaer não respondeu, mas a verdade era inegável: o Império não enviava seus homens a Porto Pedra sem um propósito sombrio. A pressão estava aumentando, e o tempo, como a maré, diminuía a cada instante. Kaer puxou o capuz um pouco mais para baixo, ocultando seu rosto na sombra.
"Vamos voltar", disse ela, a voz firme. "Lapin, peça pra Basika se livrar dos corpos. Não podemos deixar rastros."
O mar continuava escuro, e em algum lugar além do horizonte, onde o céu se encontrava com as nuvens distantes, um relâmpago roxo iluminou o mundo por um único e fugaz instante, um presságio silencioso de eventos ainda maiores por vir.
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Mar 17, 2026 07:30

Your opening chapter paints a gritty immersive world with compelling stakes and evocative atmosphere that immediately pulled me into Porto Pedra’s dangerous streets.What is the true motive of the Empire in sending those men after Kaer, and how will that threat shape her journey ahead?